Quarta-feira, 16 de Abril de 2008
2.62
É quando dizemos NÃO e ninguém aparece que tudo está certo. É quando não temos razão que temos razão. É quando um horizonte de facas nos paralisa, que aprendemos a não ser empurrados pelo medo. É quando os lugares onde gritamos pelos lugares onde podemos gritar são nossos e não esperamos que alguém venha para nos dizer que são nossos. É quando de repente estamos lá, quase lá, ansiamos pela chegada e só ainda partimos. É quando na partida não há ninguém de quem nos despedirmos, e o mundo nos espera. É quando as flores, todas as flores que um dia espalhámos pela cidade, como o estandarte de um novo tempo, como letras abertas pela neve dentro, acabaram nos nossos braços vazios. É quando de repente olhamos para o lado e a aprovação e os acenos dos outros já lá não estão, mas continuamos a avançar, nus, diante da noite. É quando percebemos que para esses outros só existimos enquanto durar a sua falta de imaginação. É quando à volta só descobrimos ruínas e sonhos perdidos onde tropeçar. É quando não queremos morrer antes da última canção. É exactamente aí. Estará lá uma corda estendida. Um sorriso para percorrermos demoradamente. O truque. E só nós saberemos.


@ godgil às 17:43
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Terça-feira, 15 de Abril de 2008
Nota
Tendo terminado, creio, a fase de testes, já encontrei finalmente o caminho que gostaria este blogue seguisse. Obrigado.


@ godgil às 00:59
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Sexta-feira, 28 de Março de 2008
abertura
Quase nunca a solidão dá a conhecer o seu verdadeiro rosto. Na maioria dos casos, evocamo-la como uma fábula, ora mais doce ora mais assustadora, consoante o efeito pretendido. Adornamo-la como um falso pressentimento, um anticlimax de Carnaval, um temor descartável. Muitas vezes é a mentira de recurso para chegarmos à verdade. À sombra da qual nos encostamos, sem nunca inverter o paradoxo. Em determinadas circunstâncias, aparecem tímidos sinais, sons longínquos e quase sempre desconcertantes, que poderiam iluminar toda uma vida. Aí, o processo é o inverso: os acenos da verdade transformam-se na mais prolixa das mentiras. E, assim, a opus magnum da aceitação de uma condição fundamental dá lugar à ilusória familiaridade com a vertigem. Perante a qual, curiosamente, mudamos de passeio mal nos cruzemos com ela. Todavia, há momentos em que o encontro é inevitável. Então descobrimos que o que nos assusta não é o que esperaríamos encontrar, mas precisamente o que lá não está. E que uma manobra de diversão não se destina a encobrir o medo, mas o desacerto. A solidão é, talvez, uma impossibilidade que transformamos numa probabilidade, num risco, numa assombração. Outra coisa é o rosto neutro do desamparo absoluto, quando por vezes mostra a sua face brutal. Capaz de derrubar as mais robustas compleições, as mais sólidas certezas. Ocasionar uma irreversível contagem decrescente. Ou então, simplesmente, atiçar o fogo.


@ godgil às 22:15
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